Rueles

Como Escrever Sobre: Escrever.

In Como Escrever Sobre on 28/05/2013 at 12:50 AM

“A pena flutuava a milímetros do papel, imóvel.

Nada. Ele não podia produzir nada. Anos de leituras e estudos, e nada a ser produzido. Por quê, se ele se sentia especial, se ele sentia que tinha algo a acrescentar? O sopro divino das musas não lhe era favorável?

Horas em frente a uma folha em branco. Nada. Um universo a ser transposto para as letras e… Nada. E então, uma palavra. E outra. Uma frase. Um parágrafo, uma página. Um livro se formou, em questão de semanas.

Não era inovador. Não era especial. Então, ele amassou o papel e o jogou fora. Recomeçou.”

Quando eu decidi que faria uma coluna cuja única função era dizer aos outros como escrever, decidi que a primeira seria uma metalinguagem. Uma explicação sobre os porquês de um escritor nunca publicado e com material aquém do esperado daqueles que fazem voos mais altos se considerar bom o suficiente para dizer aos outros como escrever. Um pedido de desculpas antecipado.

Então… Desculpem-me.

Não me considero melhor que qualquer outro autor. Tampouco acredito que outros autores sejam melhores que eu. Entretanto, conforme eu visualizava essa primeira coluna, entendi que, para me justificar, eu precisaria usar as palavras de outros que conseguiram o que eu ainda não consegui.

Para começar, Neil Gaiman. Eu gostei de Neil Gaiman antes mesmo de ler qualquer coisa por ele escrita. O respeito que as pessoas tinham pela revista em quadrinhos que ele escrevia, Sandman, era notável. E então, em um recente discurso para uma classe de formandos de artes, ele disse três palavras que o firmaram, para mim, como um grande baluarte daqueles que vivem da sua criatividade: “Façam boa arte.”

De fato, fazer boa arte é a essência de qualquer tentativa de sucesso. É preciso uma vontade ímpar de se estar à frente, de se destacar. Se você é maluco o suficiente para se considerar especial, já tem o que é necessário para se tentar ser um artista. Só o que falta, então, é fazer arte. Da boa.

Não sei se é possível ir muito mais longe do que isso como discurso inicial. A frase de Gaiman sintetiza quase tudo que é necessário nesse caminho. Não adianta esperar um sopro divino, ou um desejo irrefreável de se mudar o mundo. Para se escrever, é preciso sentar as palavras na tela em branco. Não é preciso fazer sentido, não é preciso que seja belo, não é preciso que seja bom. Basta fazer.

E conforme você faz, conforme você aprende, texto a texto, a tirar a roupa e andar nu na rua, com seu coração exposto para quem quiser ver, sua arte melhora. “A prática faz a perfeição.” Isso é um mito, uma vez que perfeição não existe. Sejamos justos: não seria legal se escrever o livro perfeito. A partir daí, nada mais seria escrito. Seria o fim. A perfeição é o armagedon da arte.

Porque arte, no final das contas, é um retrato do mundo. E o mundo está sempre mudando. Se existem infinitos conceitos, existem infinitos conceitos para se escrever sobre. Não acredite quando disserem que tudo que podia ser escrito já foi. O autor que publicou um livro ontem não fazia ideia de como seria o hoje. E por isso ele escreveu: o que existia ontem pode não existir hoje.

E mesmo que outra pessoa esteja escrevendo a mesma coisa que você, hoje, a experiência dessa pessoa, sua técnica, é diferente da sua. E é isso que todos nós temos a acrescentar as artes: nosso âmago. Somos todos únicos. Então, todo artista é um acréscimo. Não se preocupe com as dúvidas, com os mitos. Imagine que você já é um grande escritor, e com o tempo você vai se convencer que é verdade. E com o tempo, você vai convencer o mundo de que é verdade. E então, será.

Só há, portanto, uma coisa a se fazer: escrever. Não existe uma única pessoa que nunca escreveu um livro ou conto e se tornou um grande escritor. O essencial, o único verdadeiro pré-requisito para a profissão, é escrever. O resto você descobre pelo caminho.

Muitos dizem que é melhor se saber sobre o que será o seu texto antes de começá-lo. Isso é balela. Essencialmente, se você começar a escrever, a necessidade de se ter sobre o que falar vai fazê-lo encontrar um assunto. É claro que ter um plano ajuda. Mas acredite quando eu digo, é mais divertido quando não se tem ideia do que fazer. E mais divertido ainda quando não se tem ideia de como fazê-lo.

Então, se você de alguma maneira sonha em ser um escritor, não importa se de livros ou quadrinhos, ou um roteirista, só há uma maneira de se fazê-lo. Escrevendo. Sente. Encare a tela em branco. Boa sorte.

Rafael Marx.

Editor Chefe da Pulp Feek.

PS: Essa coluna é uma exceção. A partir da próxima, analisarei os métodos que outros autores usaram para certos elementos. Todos os tipos de personagem, trama, mito, elemento. Tudo terá sua vez. Estamos entrando numa jornada sem volta e sem fim.

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