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Como Escrever Sobre: Diálogos

In Como Escrever Sobre on 03/06/2013 at 8:46 PM

Um travessão e uma frase. Parágrafo. Outro travessão, uma resposta. Pronto, você escreveu um diálogo. Parece simples, mas o diálogo é onde a grande maioria daqueles que desejam ser autores cometem os erros mais absurdos, muitas vezes pelo simples fato de renegarem o diálogo e o discurso dos personagens como algo secundário.

Bem, não há nada de secundário nos diálogos. A interação por meio de palavras é tão importante para a ficção que é quase inconcebível, uma tarefa para raros gênios, a confecção de uma história sem diálogos. Afinal, eles são uma das ferramentas mais úteis da literatura.

Para começar, digamos que você precisa dar o tom de um personagem. Mostrar sua personalidade. Porque gastar uma dezena de parágrafos com uma descrição demorada da psique deste, se apenas algumas palavras colocadas na boca do personagem já servem para tanto?

Um exemplo:

“— Você está louco. – Ela disse, mostrando os dentes. – Jamais entraria nessa água gelada, ainda mais com esse vestido caro.

Ele gargalhou. De dentro da fonte, respondeu:

— Então tire a roupa.”

O que já é possível dizer sobre os personagens? Ela parece ser um tanto fútil, preocupada com seu vestido e rejeitando uma experiência nova como se fosse loucura. Ele, por outro lado, demonstrou irreverência com sua afirmação, sem medo do choque que ela pudesse sentir com a sugestão.

Há dezenas de outros exemplos. Podemos parafrasear um conhecido personagem, Gandalf, em seu diálogo com Frodo sobre Gollum:

“— Ele odeia e ama o Anel, como odeia e ama a si mesmo. Ele nunca se livrará de sua necessidade por ele.

— É uma pena que Bilbo não o tenha matado.

— Pena? Foi a pena que segurou a mão de Bilbo. Muitos que vivem merecem morrer, e alguns que morreram deveriam viver. Você pode lhes dar isso, Frodo? Não anseie tanto para dar a morte como julgamento. Mesmo os mais sábios não sabem como tudo termina. Meu coração me diz que Gollum tem uma participação ainda por fazer, para o bem ou para o mal, antes que tudo acabe. A pena de Bilbo pode decidir o destino de muitos.”

No diálogo, o longo discurso de Gandalf sobre o fato de um personagem de viés maligno ainda viver diz muito sobre o personagem. Notamos que Gandalf é sábio, e que muitas vezes se recolhe à sua mente para pensar sobre as questões que o cercam. Notamos ainda, de sua primeira fala, que ele é informado sobre tudo que ocorre em seu mundo. Por fim, é possível notar uma compaixão no personagem, uma bondade solene e sem restrições, capaz de perdoar seu maior inimigo.

Tolkien, o autor da trilogia O Senhor dos Anéis e criador do personagem, não era conhecido por adentrar na mente de seus personagens. Em suas longas descrições sobre o mundo que criara e dos atos de seus moradores, pouco espaço sobrava para profundos parágrafos sobre os pensamentos dos personagens. Quase tudo que vemos sobre a personalidade destes vêm de seus atos e de suas palavras.

Além disso, Tolkien usa as palavras do sábio Gandalf para dar ao leitor uma pista do final de sua história. Como todos aqueles que leram os livros ou viram os filmes sabem, de fato Gollum é essencial para a conclusão da saga do Anel.

E então entramos em outra grande possibilidade dos diálogos: a entrega de pistas.

Muitos autores começam uma história sem saber como ela termina. Por vezes, se colocam numa encruzilhada, e são obrigados a tirar um coelho da cartola para dar o fim que queriam a tudo. Outros autores, mais preocupados com a qualidade de seu texto, sabem, ao menos em parte, como querem que a história termine. Assim, podem se aproveitar desse fato para dar pistas dessa conclusão. E há poucas formas melhores de o fazer do que colocando sugestões nas falas dos personagens.

Por exemplo: Talvez em dado momento, aquele personagem aparentemente bobão e desligado, num súbito momento de clareza, perceba o que vai acontecer no fim da jornada, ou talvez logo a seguir. O leitor se sentirá estupefato ao perceber que ele estava correto.

Outra alternativa é fazer como Tolkien, colocando nas palavras de um personagem reconhecidamente sábio uma espécie de previsão. Entretanto, isso deve ser usado com mais cuidado, de forma mais misteriosa, pois qualquer hipótese levantada por um personagem desses será levada mais a sério. Caso contrário, corre-se o risco do personagem servir apenas como um oráculo da história, entregando a conclusão para os leitores antes do fim e acabando com a surpresa.

O diálogo, em si, é essencial em um grande número de técnicas de escrita, entre elas uma das grandes favoritas dos autores modernos, o “Mostre, Não Conte” (mais sobre a técnica em uma futura coluna). Em um bom diálogo, o autor deve evitar a repetição.

“— Eu te amo. – Disse ele.

— Não estou tão certa sobre isso. – Disse ela.

— Você não me dá aberturas. – Disse ele.”

Como você pode notar, a repetição da palavra “disse” se torna enfadonha, desnecessária. Ela pode ser substituída por outras, de forma a dar mais personalidade à conversa.

“— Eu te amo. – Afirmou.

— Não estou tão certa disso. – Respondeu ela.

— Você não me dá aberturas. – Disse, num resmungo.”

A caracterização do ato de dizer também é uma grande ferramenta. Afirmar que o personagem disse algo num resmungo caracteriza desgosto. Substituir o “disse” por “gritou” também é uma alternativa quando se quer demonstrar que o personagem perdeu a cabeça ou foi atrapalhado pelo som ambiente. Há uma grande gama de características que pode ser dada ao discurso, dando ao autor um arsenal de ferramentas para descrever os sentimentos que afloram no personagem sem a necessidade de um olhar mais profundo na mente deste.

“— Eu o perdi na ponte. – Disse, num sussurro inaudível e temeroso.

— O quê? – Gritou o superior, com urgência.

— Ele caiu enquanto eu cruzava a ponte. – Afirmou, tomando coragem.

— Seu imprestável! – Grunhiu o superior. – Aquela arma era essencial para a estratégia.

— Não houve nada que eu pudesse fazer. – Desculpou-se, embora não sentisse culpa. – Eu fiquei inconsciente por alguns instantes.”

Como a descrição da última fala demonstra, por vezes a combinação de um diálogo descrito com uma incursão pela mente do personagem pode ser a melhor escolha para demonstrar um sentimento ou uma característica. O personagem não se vê como culpado, mas como respeita a hierarquia e está tratando com um superior, pede desculpas mesmo assim.

Finalizando, uma última coisa a se evitar é a utilização de nomes como indicativo de quem está falando com quem. Exceto em caso de um chamado para a conversa, essa indicação pode ser ainda mais cansativa do que a repetição do “disse”.

“— Jorge!

— Julio!

— Quanto tempo, meu camarada. – Afirmou Julio, saudoso.

— Verdade. Desde os tempos do Caxambi? – Questionou Jorge.

— Acho que sim. – Respondeu, pensativo. – Me diz uma coisa, Jorge. Você ainda sai com a Renata?

— Você não vai acreditar, Julio! – Sorriu, mostrando uma aliança no dedo. – Nós nos casamos!”

Pense da seguinte maneira: Não é extremamente irritante numa conversa quando seu amigo fica repetindo seu nome a cada frase? O mesmo vale no texto. Sem a repetição desnecessária, o texto flui muito mais naturalmente.

“— Jorge!

— Julio!

— Quanto tempo, meu camarada. – Afirmou, saudoso.

— Verdade. Desde os tempos do Caxambi? – Questionou.

— Acho que sim. – Respondeu, pensativo. – Me diz uma coisa. Você ainda sai com a Renata?

— Você não vai acreditar! – Sorriu, mostrando uma aliança no dedo. – Nós nos casamos!”

Isso não impede, claro, a utilização do nome dos personagens no diálogo, com certa parcimônia, em caso de diálogos mais longos, onde o leitor pode ficar confuso sobre quem está dizendo cada frase.

Como exercício, fica uma sugestão. Transcorra um diálogo imaginário entre você e um amigo seu. Um amigo real e que você conheça bem. Com a utilização de personagens bem conhecidos, o diálogo fluirá com natureza, e você pode experimentar todas essas técnicas.

Rafael Marx

Editor Chefe da Pulp Feeek

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