Como Escrever Sobre: Clichês 101

O título dessa coluna é um clichê. Quase sempre que um colunista, jornalista ou outra pessoa cujo trabalho é informar resolve falar algo básico sobre um assunto, o título acaba sendo como o nome de uma matéria universitária, às vezes na forma americana (como eu usei) ou com um simples 1 na frente.

Para compensar isso, vou quebrar dois clichês. O primeiro: não vou explicar o que é um.  O segundo é uma afirmação: Clichês não são péssimos. Eles foram testados, usados, e funcionaram. Muito bem. Por isso se tornaram clichês. Eles podem contribuir imensamente para seu texto. Mas os clichês sofrem da falta justamente de uma das características que separa o bom autor do excelente: a originalidade.

A coluna de hoje não é sobre evitar clichês. Pelo contrário. Vou enumerar alguns dos mais básicos, explicar como ele pode ser usado a seu favor, onde está o limite dele, e como tentar aplicar um pouco de originalidade a ele.

Nota: Quebrar o clichê de uma coluna sobre, justamente, clichês, configura um. Notas intermediárias também.

“Ele matou minha família.”

Já reparou a superpopulação de protagonistas órfãos? Aposto que já. Harry Potter, Eragon, Peter Parker. Isso se deve, generalizando, a dois fatos: Pais são chatos, impedindo as pessoas de fazerem coisas legais, e um protagonista sem pais despertará dó. Simples, não?

Pior ainda: Na maioria das vezes, o vilão foi o responsável, direta ou indiretamente, pela morte dos pais do herói da história. Voldemort matou Thiago e Lílian Potter. E, ampliando ainda mais o clichê: o herói, às vezes, perdoa ou sente pena do responsável pela morte de seus pais.

Esse clichê é extremamente útil na hora de se criar um personagem que terá de atender ao Chamado da Aventura, pois ele não terá que se preocupar com seus pais ou entes queridos em perigo enquanto ele aprende como soltar bolas de fogo ou a usar sabres de luz. Ele também não precisará se preocupar com o desejo da mãe ou do pai de que ele fique em casa, longe dos perigos. O público ainda por cima se preocupará com o destino daquela pobre pessoa que não teve os amores paterno e materno. E, de quebra, você ganha um motivo para colocar o leitor contra o vilão.

Entretanto, esse é provavelmente um dos clichês mais recorrentes de todos. Posso passar páginas e páginas nomeando livros que usaram a ideia de maneira extremamente fidedigna, mas disfarçada. Portanto, a utilização pede por algo original.

Que tal acrescentar um irmão? Eles raramente aparecem nos personagens órfãos, porque podem representar um peso a ser carregado. Bem, mesmo que esse seja o caso, isso pode ser útil. Ou o irmão seja até quem carrega o protagonista! Talvez ele exerça o papel de mentor! Talvez o fato de esse irmão existir nem seja conhecido pelo personagem. A ficção está saturada de “Eu sou seu pai”, mas quantas vezes você viu um “Eu sou seu irmão”?

Ou talvez, os pais estejam vivos, e eles mesmos impulsionem o filho a seguir a aventura. Talvez eles deem o filho a um mago que o treinará e dará a oportunidade de uma vida melhor. Ou então, os pais podem simplesmente serem dois malditos que largaram o filho no mundo, sem necessariamente serem vilões.

O Escolhido

Serve de justificativa para o fato do personagem sempre escapar das situações ruins. As coisas foram bem porque existe uma profecia/papel que deve ser cumprida pelo protagonista. Ele tem poderes porque eles serão as ferramentas para essa missão. Ele não morre porque sem ele o mundo não conseguiria ir adiante.

Meu conselho: Não use esse clichê no seu protagonista. Nunca. O fato de ele ter algo a cumprir e ser especial pelo simples fato de ser especial é chato. Ninguém irá temer por sua vida. Ninguém irá sofrer com seus ferimentos. É simplesmente um desserviço à sua história.

O que você pode, entretanto, é brincar com o conceito. O protagonista pode ser o ajudante do escolhido. E esse escolhido pode falhar. Mais interessante ainda: o antagonista é o escolhido. E agora?

“Ele é mal porque…”

O mundo é cruel e por isso algumas pessoas são cruéis. O vilão, ou um de seus principais capangas, deve ser eximido da culpa, porque o mundo o fez ser daquele jeito. Bem recorrente, não?

Esse clichê só tem uma real função: caso o vilão ou auxiliar de vilão vá se redimir, não importa como. Caso contrário, é aconselhável que se deixe essa oportunidade passar, e você deixe o vilão sem justificativa. Porque, afinal de contas, existem coisas injustificáveis.

Um toque de originalidade pode ser dado, entretanto. Um exemplo é: a história que o vilão usa para justificar seus atos malévolos é, na verdade, uma grande mentira.

A Donzela Indefesa

Acredito que esse até mesmo dispensa apresentação. Torne mais original fazendo a donzela não ser tão indefesa assim. Mas cuidado, pois até isso está, aos poucos, se tornando um clichê.

“Eu não sigo as regras.”

Extremamente comum em romances policiais. Nosso herói faz as coisas pelo seu próprio método. Ele tem um coração puro, gosta de gatinhos/cachorrinhos, mas não tem medo de espancar o sujeito preso quando o objetivo é o bem maior.

Funciona assim: todos nós admiramos pessoas independentes. Quem faz justiça a sua própria maneira tem grandes chances de ser admirado por isso. Acontece, entretanto, que ninguém é tão unidimensional. Muitas vezes, seguir as regras é justamente a maneira mais fácil de se cumprir um objetivo. Por que não, então, variar nessa abordagem, fazendo um protagonista que segue as regras sempre que conveniente?

O Ponto Fraco

O perigo do momento, seja ele o grande vilão ou apenas um capanga, é virtualmente indestrutível. Exceto por um ponto em suas costas ou um arma específica. Uma vez que isso é descoberto, se torna fácil.

Mas na vida real, nada é fácil assim. Algo que resolve um problema uma vez não necessariamente o resolverá sempre. É muito mais interessante, tanto para o autor quanto para o leitor, que a cada vez que certo capanga aparece, seja necessário um plano diferente para o derrotar. E contra o inimigo final, é sempre mais divertido quando ambos os lados tenham forças equiparadas.

A pessoa por trás da maldade

Há um arqui-inimigo. Um mago maligno poderoso. Um imperador com ímpeto de conquista. Um chefe da máfia. Uma vez derrotada essa pessoa, o mundo melhorará. Muito útil para focar a raiva do leitor em um ponto. Afinal, toda a maldade causada pelo exército inimigo é culpa do imperador.

Bem, eu acho muito interessante quando esse papel não é preenchido. Uma organização inteira de ninjas malignos, sem uma liderança, será muito mais difícil de derrotar do que se ela for controlada por um líder. Não há cabeça a ser cortada. Podemos acabar com o mal em um ponto, mas isso não o impedirá de existir em outro e continuar se propagando.

O rival a ser superado

O protagonista quer ser o maior mestre Pokémon de todos. Mas há um rival muito mais eficiente naquele papel. Em histórias maniqueísmo, esse personagem funciona como o arqui-inimigo do clichê anterior de maneira eficiente.

Entretanto, pode ser muito mais interessante se o herói for, na verdade, a pessoa mais próxima daquele objetivo, e todos os outros o querem superar/atrapalhar. Pense nas possibilidades de conflito que são causadas por essa simples alteração.

O final feliz

O maior clichê de todos. Ele é fácil, ele é esperado. E muitos acreditam que ele é o que o público quer. O que é uma grande besteira. Não subestime os leitores. Eles estão prontos para lidar com o fato de que o vilão venceu. Ou pelo menos com o fato de que o vilão perdeu, mas os heróis também (ou pelo menos sofreram grandes perdas pelo caminho).

Não é necessário evitar o final feliz, entretanto. O que é preciso, na verdade, é seguir o curso de ação que a história tomar. Se tudo encaminhou para um final amargo ou agridoce, faça. Não force o final feliz. Isso é uma derrocada.

Você pode, ainda, fazer um final feliz, mas não completo. Talvez o protagonista jogador de basquete não tenha ganhado o campeonato amador, mas ele conseguiu seguir o seu sonho de se tornar um jogador profissional. Ou, de maneira ainda mais corajosa: talvez ele ganhe o campeonato, e nunca realize seu sonho.

Afinal, nem tudo acaba bem na vida. Desgraças acontecem, e nós temos que aprender a lidar com elas, e tirar delas um aprendizado. A vida continua, mesmo depois do capítulo final.

Rafael Marx

Editor-chefe da Pulp Feeek

PS: Poucas coisas são mais clichês numa coluna ou carta do que um post-scriptum.

PPS: Entretanto, a cada post acrescentado ao post-scriptum, o clichê diminui.

PPPS: Eu, uma vez, escrevi uma carta com 43 post-scripta.

PPPPS: Ok, agora chega.

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2 thoughts on “Como Escrever Sobre: Clichês 101

  1. Acho que, além disso tudo, a regra de ouro pra evitar clichês é estabelecer a lógica do seu trabalho e segui-la até o final. Olha o American Gods, por exemplo. Ele é cheio de clichês, cheio mesmo, mas o Neil estabeleceu uma lógica consistente e a gente nem os percebe. Shadow, pra começo de conversa, não tem pais. Depois descobre (SPOILER ALERT!) que Wednsday é o vilão e é o seu pai, e seu melhor amigo (que pode muito bem ser seu irmão também, o “adotado”) é um putão e vilão também. Isso é um clichê, não é? É, mas segue a lógica do livro, e nem parece ser. Você espera esse tipo de comportamento do Wednsday porque ele é um trambiqueiro de primeira, do mesmo jeito que espera a mesma coisa do Low Key porque putz, ele é o Loki, e é isso que o Loki faz.

    Todos os clichês de Lakeside também são difíceis de perceber e fáceis de conviver, tudo está dentro da lógica, não existe um momentinho sequer de deus ex machina, tudo gira em torno da lógica inicial.

    Pra mim esse é o melhor jeito de fugir de clichês. Na verdade, é melhor que fugir deles, é superar a noção de “it all happened before and will happen again” e libertar sua escrita.

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