Rueles

Fonte de Inspiração – Infância [O Fantasma]

In Fonte de Inspiração on 07/07/2013 at 10:00 AM

           Quando comecei, esse segundo texto, minha intenção não era falar só de Fantasma, e sim falar também de outros clássicos, que eu achava reciclado nos sebos da minha cidade (só comecei a ler quadrinhos, mais da época, após a morte da minha mãe, até porque ela fazia questão de que eu lesse os clássicos de sua infância.). Mas decidi falar do Fantasma, por ser um dos quadrinhos que eu mais adquiri apreço com o passar dos anos.

Quadrinho: Fantasma

Autor: Lee Falk

Desenhista: Phil Daves

Criação: 17 de fevereiro de 1936 até os dias de hoje

História

            O Fantasma é um personagem criado por Lee Falk (também o criador do personagem Mandrake), Falk colocou o desenvolvimento gráfico de suas histórias a encargo do desenhista Phil Daves. O Fantasma é um herói que combate o crime usando uma máscara preta e um uniforme roxo collant, ele foi o primeiro herói a ter um uniforme, e talvez por isso tenha influenciado fortemente os heróis posteriores.

A publicação de suas histórias foi iniciada em 17 de fevereiro de 1936 em jornais diários, e uma edição colorida começou a ser publicada em maio de 1939, continuando até os dias atuais. Em 1943, o personagem foi adaptado para um seriado com quinze episódios onde foi interpretado pelo ator Tom Tyler. Em 1996 teve uma nova oportunidade de voltar as telas interpretado agora por Billy Zane, o filme teve também Kristy Swanson e Catherine Zeta-Jones e foi dirigido por Simon Wincer, esse filme é considerado um clássico da seção da tarde, e é velho conhecido de muitos Brasileiros.

O herói também participou de animações como no desenho infantil Defensores da Terra, ao lado de personagens como Flash Gordon, Mandrake e Lothar, além do Fantasma 2040, com aventuras no futuro, apresentando uma nova geração na linhagem do herói.

Algumas curiosidades, até 1939 o uniforme do Fantasma no Brasil por limitações gráficas era Vermelho, assim como em países como a Itália e a Turquia. Na Escandinávia ele é azul, na Nova Zelândia é marrom e no resto do mundo ele é roxo mesmo. O Fantasma sempre carrega duas pistolas calibre 45 em seu cinturão de couro preto com uma fivela imitando uma caveira, cada Fantasma tem um cinturão, e este é guardado em seu tumulo, no fundo da Caverna da Caveira.

Sinopse

            Na escuridão da selva, os tambores murmuram: Há mais de 400 anos uma grande embarcação foi atacada por piratas Singh. O filho de um lorde inglês foi o único sobrevivente do ataque, e acaba se tornando um nafrago em uma costa de Bangala, onde é acolhido por pigmeus Bandar.

Algum tempo depois recuperado fisicamente, mais ainda tomado pela dor de perder tudo que tinha, toma uma crânio descarnado de um dos piratas que atacou o seu barco e profere o célebre juramento da caveira:

“Juro que dedicarei toda minha vida à tarefa de destruir a pirataria, a ganância, a crueldade e a injustiça. E meus filhos e os filhos de meus filhos me perpetuarão”.

A partir disso surge à tradição do fantasma, de pai para filho, a herança é passada, sempre com o mesmo uniforme, e por séculos combatendo a vilania, surge o mito da imortalidade. A grande verdade por trás da mascara e dos mitos é que este herói é a 21ª geração da Dinastia do Fantasma e se chama Kit Walker como todos os seus antecessores.

Filho de uma americana, Kit foi criado no Mississippi por seus tios, e foi lá que conheceu Diana Palmer, que mais tarde se tornaria sua esposa, lá ele cresce intelectualmente e fisicamente, se tornado um atleta excepcional e se preparando para o dia em que lhe seria entregue o legado do Fantasma.

Até que enfim chega a hora, uma mensagem da Floresta Negra, seu pai está a beira da morte, e requisita sua presença, Kit chega e encontra seu pai na cama ferido, deitado sobre peles de animais a espera da morte.

Ao chegar Kit repete o juramento da caveira e então recebe dois anéis, um com a marca do bem, simbolizando a proteção que daria as pessoas a quem ama, e outro com a marca da caveira que simbolizaria a dor infligida em seus inimigos. Morre o 20º Fantasma e o Jovem Kit se torna o atual herói.

Kit então herda os vários esconderijos do Fantasma, a Mesa Walker, uma espécie de cabana que fica no alto de um grande monte muito difícil de ser escalado, ou até mesmo de se chegar de avião, a Ilha do Éden, e sua base principal a Caverna da Caveira, nas profundezas da floresta de Bengala, repleto de tesouros que vão desde jóias preciosas até mesmo itens raríssimos. Na caverna da Caveira também se encontram as Crônicas do Fantasma, numerosos livros escritos a mão que registram as aventuras dos 21 fantasmas, e a cripta onde encontramos todos os 20 antepassados do fantasma de onde aconselham o herói.

Ele então se envolve em um grande numero de aventuras para defender a selva da pirataria e da ganância dos homens.

 

O que tirar dessa obra?

Desenvolvimento

            Das muitas coisas interessantes a história do Fantasma, que podem ser observadas, pela estrutura original criada por Lee Falk, à maneira como a história vai se desenrolando independente de quem a roteiriza, ou o tempo em que ela está adaptada é muito importante.

Definir conceitos amplos e gerais sobre um personagem, esta foi exatamente que Lee Falk fez com o Fantasma e com isso delimitou caminhos por onde seu desenvolvimento deveria seguir: Ele é humano, tem uma extrema relação com animais, e combate a ganância e a ambição humana.

Neste ponto, um caminho que podemos se espelhar no Fantasma, que acabou se espelhando mais tarde em todos os Heróis que utilizariam uniformes, é o do herói com uma ideologia profunda em sua carne.

Exemplos de heróis famosos que lembram muito este conceito do Fantasma, que poderíamos citar, seria o Batman, que após perder seus pais, decide combater o crime e a maldade. Lanterna Verde que tem um ideal e até mesmo um juramento muito semelhante ao fantasma. E da Marvel temos o Ciclope apresentado recentemente na Mega Saga Vingadores Vs. X-Man que aparece com este ponto de vista, mas para com os mutantes.

Evolução

            Uma vez um personagem delimitado, o que podemos fazer para evoluir esse personagem? Muitas vezes essa é uma dificuldade para autores que conseguem traçar personagens concretos que se apresentam bem definidos, como o caso do Fantasma, a solução utilizada por Lee Falk foi introduzir em seu mundo fictício as suas crenças, e trazer referências externas ao estilo da história constantemente.

Fantasma é um herói, que enfrentou desde feiticeiros, piratas, gladiadores do tempo antigo de Roma, ou até mesmo mercenários de grandes empresas industriais, essa gama de assuntos colocados constantemente na sua obra e o detalhe e cuidado utilizados por Lee Falk no período inicial da obra, fez pouco a pouco seu personagem evoluir de um simples justiceiro mascarado para algo mais.

Muitos dizem, e acredito ter até mesmo entrevistas, encontrei várias referências, mas não uma confirmação, que as histórias originais de Lee Falk, Mandrake e Fantasma, eram mais uma maneira de mostrar seu trabalho como roteirista sem a pretensão de ter o sucesso que realmente alcançou. Talvez por isso ele tenha encontrado essa necessidade de gradualmente mudar o tom do personagem, em suas histórias, essa necessidade de mudança pode ser percebida pelas diferentes temáticas abordadas e até mesmo pelos diferentes planos onde as histórias do Fantasma ocorrem.

Eu coloco essa habilidade de conseguir dar tom e evoluir sua história como o principal motivo do sucesso do fantasma, e mais uma vez podemos ver a influência dessa maneira de construir personagens em muitos heróis posteriores existentes.

Reflexão

            Diga-me quantas histórias de aventura te fizeram refletir profundamente até hoje? Nem sem as histórias do Fantasma tem esse potencial, isso é verdade, mas existem histórias que vão à profundidade do ser humano discutindo assuntos como ganância, crueldade, convivência harmoniosa com a natureza, amor, paz, bondade e até mesmo questões sociais que pareciam ser impossíveis de serem discutidas em um quadrinho desse estilo.

Como trazer essas reflexões sem alterar a estrutura da história? A forma encontrada por Falk pode parecer simples, mas ele torna esses assuntos o vilão de suas histórias, assim como seu personagem é o arquétipo do bem e da justiça, seus inimigos são dotados de inúmeros arquétipos simbolizando o que é contrário ao pensamento defendido por Falk. Se o Fantasma é o Herói da justiça encarnado, seus inimigos são seres complexos e humanos que podem ser bons e maus tudo depende da profundidade necessária a reflexão do tema.

Dinamismo

            A história por ter passado por décadas tem um dinamismo que funciona quase como um registro histórico da evolução dos quadrinhos. Se você pegar em uma década ou outra pode ver um elemento novo, que se adiciona a história sem alterá-la. Essa grade criada pelo conceito ideológico bem determinado imposto ao personagem faz com que mesmo a modernização dos quadrinhos e as opiniões de um ou outro roteirista, não consigam tirar do personagem a alma colocada por Falk.

É você ter um personagem extremamente bem marcado, e ao mesmo tempo tê-lo livre para interagir com qualquer tipo de situação, recentemente inclusive, um quadrinho novo colocou o personagem fantasma nos dias de hoje, vivendo em nossa cidade, se escondendo e tentando viver a tradição do Fantasma de outra maneira, mas sem abandonar o juramento da caveira, e as velhas ideologias.

Minha Opinião

(na falta de nome melhor para esse espaço)

O sebo do Corinthiano

            Semana passada eu contei pra vocês, que eu aprendi a ler com o Mauricio de Sousa, foi ai que o pesadelo da minha família começou, como alimentar esse jovem garoto ávido por literatura?

Foi ai, que uma vez acompanhando meu Avô pagar as contas eu descobri o primeiro paraíso da minha vida, o Sebo do Corinthiano, localizado ao lado da Panificadora Real, (que possui a melhor torta de legumes da minha cidade até hoje). Basicamente o Sebo do Corinthiano era o paraíso de qualquer fã de quadrinhos, com edições raríssimas de quadrinhos como Conan o Bárbaro, Tex, e claro O Fantasma. Era uma diversão ficar procurando durante horas naquele lugar por quadrinhos e mais quadrinhos dos meus preferidos, que alias eram esses três. Foi no Sebo do Corinthiano também que tive meu primeiro contato com o trabalho do Marcelo Cassaro, uma edição da Revista Dragão Brasil que estava por lá, e que achei o primeiro livro de Isaac Asimov que mais tarde se tornaria meu autor preferido.

O sebo faliu anos mais tarde, até hoje não sei que fim deu, recentemente descobri outra banca de usados na minha cidade maravilhosa e lá já minerei mais algumas edições de Fantasma, inclusive um número que tinha sido emprestada para alguém e nunca devolvida, e dezenas de outros quadrinhos fantásticos. Sou Rato de Sebo, pois foi em lugares dessa forma, e principalmente nos lugares mais desorganizados que achei os verdadeiros tesouros da minha vida.

Aprender e aprender

            Falar de fantasma para mim é falar de aprendizado, o primeiro contato que tive com diferentes traços da cultura mundial foi fantasma, exatamente por essa multiplicidade que citei. Foi com Fantasma que tive meu primeiro contato com a História Romana, com conceitos como conviver bem com homens e animais, eu aprendi a ler em casa, e comecei a ler fantasma com cerca de seis anos, então antes de ter recebido uma carga grande de cidadania e conceitos morais da escola, os quadrinhos já começavam a fazer esse efeito sobre mim.

É estranho, que ao falar desse assunto eu me lembre de uma reflexão tão besta, mas tenho que citá-la sempre que eu falo dessa formação em conjunto que tive por todo período da minha vida, que une formação familiar, escolar, religiosa, quadrinhos, livros, musica, TV e cinema (a grande paixão secreta de minha mãe). O assunto é o seguinte, eu sou a prova viva de que um indivíduo exposto a uma cultura de mídia violenta, nem sempre vai ser um individuo violento ou doente, que muitas vezes a censura é exagerada e que é preciso que esta censura venha dos pais e não de um órgão específico.

Passando por esse breve comentário, gostaria de finalizar dizendo que meu amor por Fantasma vem da responsabilidade que os autores que se apropriaram da obra sempre tiveram, diferentemente de muitos quadrinhos da DC comics ou da Marvel, onde se faz o que quer e quando quer, parece que com personagens como o Fantasma, Sombra e o Aranha (Defensor do crime, inspirado no Sombra), os roteiristas e desenhistas sempre acabaram tendo um certo respeito.

 

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